Negócio centenário

Membro da 10ª geração da família fundadora da casa de chás mais famosa do mundo, o relações-públicas Stephen Twining viaja o mundo promovendo os blends da Twinings

POR MARINA AZAREDO 

Se o chá virou uma instituição da cultura britânica, muito se deve à atuação e à veia empreendedora de Thomas Twining, um comerciante inglês que, em 1706, comprou uma pequena cafeteria em Londres. O seu conhecimento de chás de qualidade fez com que ele logo se destacasse em um mercado em que a concorrência era acirrada. Hoje a Twinings está presente em 115 países e virou sinônimo de chás de qualidade – em 1837, a Rainha Victoria concedeu à companhia sua primeira autorização real para chás, tornando-a fornecedora oficial da família real britânica.

Na década de 60, a empresa foi comprada pela Associated British Foods, conglomerado de produtos alimentícios, mas não se afastou totalmente de suas origens. Atualmente Stephen Twining, da 10ª geração da família, é o diretor de Relações Públicas da marca, responsável por promover e divulgar os chás Twinings ao redor do mundo. Na entrevista a seguir, ele fala das particularidades do mercado brasileiro e conta por que aposta em um aumento do consumo da bebida por aqui.

1. Em que momento você passou a se interessar por chás?
   Comecei no negócio da família há 33 anos. Mas, na verdade, eu passei a me interessar pelo mundo dos chás aos 8 anos. Estava fazendo um trabalho de Geografia na escola e o tema era a Índia e o Império Britânico e a relação do chá com esse período histórico. Ao final do projeto, o professor pediu que eu organizasse uma degustação de chás para os meus colegas de classe. Lembro-me que eles ficaram muito impressionados com a quantidade de cores e sabores diferentes. Foi naquele momento, ao notar que meus colegas sabiam muito pouco sobre chá, que eu percebi que isso poderia ocorrer com a maioria das pessoas. E decidi compartilhar o conhecimento que eu tenho sobre o tema. Essa é a minha missão.

2. A que você atribui a longevidade da Twinings?
   A pessoa que começou tudo isso, em 1706, foi Thomas Twining. Sua única ambição era ter uma boa reputação por fazer algo muito bem. E ele decidiu apostar nos chás. Mas, embora tenha aberto a primeira loja de chás e cafés, ele não expandiu o negócio porque percebeu que o varejo não era a sua especialidade. Então ele ficou vendendo o seu próprio chá e passou essa filosofia adiante: vamos focar em um negócio e fazê-lo extremamente bem. O filho de Thomas foi quem passou a vender os nossos chás para o exterior. Mas o mais importante é que, já naquela época, o produto exportado tinha de ser impecável, com a mesma qualidade do vendido na Inglaterra. E isso é assim até hoje. Se você está tomando um Lady Grey, por exemplo, pode ter certeza de que ele é igualzinho em São Paulo, Londres ou Sydney.

3. Mas a Twinings também tem variedades locais de chás, certo? Como elas são criadas?
   Sim. Nós temos especialistas locais para detectar os sabores que agradam a população de cada país. Cada lugar tem seus diferentes hábitos e gostos. Aqui no Brasil há chás que não existem na Inglaterra. Vocês têm, por exemplo, uma variedade maior de chás de frutas. Nós, britânicos, somos muito conservadores em relação aos chás com sabores de frutas.

4. Qual é a sua opinião sobre os sabores brasileiros?
   Eles são empolgantes. Eu tento ter uma mente aberta. Uma das coisas mais bacanas de viajar é ter a oportunidade de ver e experimentar coisas que você não teria se ficasse em casa. Então eu sempre busco ter essas experiências que me possibilitam conhecer outras culturas.

5. O que é tendência quando se fala em chá?
   Saúde e bem-estar estão muito em voga. Estamos muito mais conscientes sobre esses temas. O Brasil, por exemplo, é grande produtor e bebedor de café, mas as pessoas hoje em dia sabem que não convém exagerar no café e estão tentando mudar alguns hábitos. Então estamos observando um crescimento na venda de chás, principalmente do que chamamos de infusões de ervas, sem cafeína, como erva-doce, hortelã, limão e gengibre. As pessoas querem uma bebida quente e saborosa, mas não querem mais ingerir tanta cafeína.

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