SÓ VEJO CRESCIMENTO COM INOVAÇÃO

Diretor-geral da Barilla Brasil há 15 anos, o paulistano Maurizio Scarpa conta como a marca italiana conseguiu crescer no concorrido mercado brasileiro de massas e projeta uma meta ainda maior para este ano

POR JUNIOR FERRARO
RETRATO GUI GOMES

O empresário Maurizio Scarpa não sabe cozinhar. A única vez que se aventurou nas panelas foi com a ajuda de um chef profissional, em um almoço para celebrar os aniversariantes do mês da empresa em que trabalha. A receita foi espaguete com ragu de fraldinha, “meu novo prato preferido”. Não se engane, porém. Mesmo sem habilidades culinárias, Maurizio é expert no universo das massas. Desde 2004, o administrador paulistano, de 53 anos, é o diretor-geral da Barilla Brasil, subsidiária da tradicional marca italiana de pastas, molhos e produtos de panificação.

Presente no País desde 1998, a Barilla passou 15 anos liderando o mercado de massas de grano duro importadas, com mais de 50% das vendas. Em 2013, Maurizio conduziu uma operação que mudou a trajetória da Barilla no País: a fabricação de massas de grano tenro com ovos em solo brasileiro. “Foi uma quebra de paradigma para a marca e resultou num crescimento de 80% em relação ao ano anterior”, conta. 

Hoje, Maurizio dirige uma equipe de 50 funcionários (em 1998, eram 12) na nova sede da Barilla Brasil, em São Paulo. Foi ali, numa sala ao lado da cozinha experimental onde teve sua feliz experiência ao fogão, que o empresário concedeu esta entrevista para a Azul Magazine, na qual fala da importância da inovação para se crescer nesse mercado, dos projetos sociais da marca no Brasil e das metas para 2019. “Estamos cuidadosos, mas muito esperançosos.”

SE COMPARAR O PREÇO DA NOSSA MASSA POR QUILO, ELA É MAIS BARATA DO QUE O MACARRÃO INSTANTÂNEO. E MUITO MAIS SAUDÁVEL

Quando a Barilla chegou ao Brasil, como era o mercado de massas?
O Brasil é hoje um mercado importante e consolidado. Compete com a Rússia pelo 3º lugar, depois de Itália e Estados Unidos. Mas é um mercado peculiar. Na Itália, o macarrão é produzido a partir da farinha do grano duro, naturalmente amarela. No Brasil, esse tipo de trigo não cresce, pois tem dificuldade com o solo e com o clima. A massa produzida aqui, desde o começo, usa a farinha branca, de grano tenro, a mesma usada para fazer pão. Para a massa ficar amarela, há a adição de ovos. E o brasileiro se habituou a comer essa massa, que é boa, mas tem características diversas da de grano duro. É mais macia e seu cozimento, diferente. 95% dos consumidores brasileiros compram massa com ovos. Os outros 5% consomem a de grano duro. Durante 15 anos a Barilla ficou dentro desta fatia menor, na qual somos líderes absolutos, com 50% de vendas. Mas não dá para crescer muito dentro dessa faixa.

Qual foi a solução para ampliar a participação no mercado nacional?
Em 2013, começamos a fabricar no Brasil macarrão com ovos, desenvolvido para o consumidor brasileiro. Foi uma quebra de paradigma para a Barilla, que não tem esse tipo de massa fora do País. O macarrão é produzido por terceiros, com a nossa receita e a supervisão dos técnicos da Barilla. Quando foi lançado, houve um aumento de 80% do faturamento em relação a 2012. Em cinco anos, triplicamos a participação no Brasil.

Por que alguém deixaria de comprar uma massa com ovos brasileira para comprar a da Barilla?
Atuamos sempre no segmento premium. Já éramos premium no mercado brasileiro de grano duro, com preço em torno de 20% acima da média, e é a mesma coisa com a massa com ovos. A razão pela qual a pessoa compraria esse produto é pela qualidade que ele oferece. É uma massa diferenciada. Apesar de ser uma massa de grano tenro, você não precisa colocar óleo porque ela não vai grudar, por exemplo. E tem a marca Barilla.

Como se cresce mais em um mercado consolidado como o Brasil?
Há duas oportunidades. Uma das maneiras de se destacar e crescer é ser um player nacional, ter alcance em todo o País. No Brasil há pouquíssimos fabricantes com esse alcance, como Adria, que está em todas as regiões, e Renata. As outras são regionais. A Barilla pode ser considerada hoje uma das poucas marcas de massa nacionais. Estamos presentes em quase todos os estados com o grano duro e uma presença mais regional, no Sul e Sudeste, com o grano tenro. A outra oportunidade é que o mercado brasileiro carece de inovação. Os fabricantes fazem o básico do básico e focam muito em preço baixo. O olhar deve ser o contrário: o mercado tem que trazer produtos de qualidade e diferenciados, que é o que estamos fazendo aqui. Nossas massas diferenciadas, como a integral, a de cinco cereais e a sem glúten, são as que mais crescem hoje no Brasil. O integral cresceu 10% todo ano nos últimos 10 anos. A ideia é ter um preço justo e investir em tecnologia. Só vejo crescimento com inovação

Qual é o perfil do consumidor brasileiro?
Dificilmente vamos chegar ao nível do italiano, que come 25 kg de massa por ano. O brasileiro consome em torno de 5 kg a 6 kg. O americano, 8 kg por ano. Ainda temos um caminho muito longo aqui, inclusive para estimular o consumo de produtos saudáveis. Se comparar o preço da nossa massa por quilo, ela é mais barata do que o macarrão instantâneo. E muito mais saudável. Nosso cappellini, por exemplo, cozinha em três minutos, tão rápido quanto um macarrão instantâneo. E um pacote de massa custa R$ 8 e alimenta quatro pessoas.

A Barilla promove todo ano um campeonato com chefs do mundo inteiro. A sétima edição, realizada em Milão, em outubro, foi a primeira a ter a participação de um brasileiro?
Sim. É o World Pasta Championship. Em 2018 havia 18 chefs, entre eles o Marcelo Milani, do restaurante Piccolo, de São Paulo. Isso reflete o envolvimento da Barilla com o Brasil. O objetivo do concurso é eleger o Master of Pasta, mas não é para ter só chefs italianos. O evento traz chefs de vários países, que criam o que querem e trazem diversidade para o concurso. Em 2016, por exemplo, ganhou um chef esloveno, Jure Tomic. Na edição de 2018, a campeã foi Carolina Diaz, norte-americana de origem latina e chef do Terzo Piano, em Chicago.

A Barilla tem adotado uma postura mais saudável. Como surgiu esse movimento?
Isso começou em 2009, com a formação do Barilla Center for Food & Nutrition. É uma fundação organizada e mantida pela Barilla, onde se estuda a alimentação como um todo, levando em consideração fatores culturais e econômicos e as melhores maneiras de se alimentar usando menos recursos do meio ambiente. Todas as conclusões dessa fundação são abertas e podem ser acessadas na internet, inclusive por nossos concorrentes. Mas o que realmente mudou a Barilla foi o conceito “Bom para você, bom para o planeta”. Basicamente são duas pirâmides. A primeira é a nutricional, baseada na dieta mediterrânea: você deve comer menos porções da ponta, onde estão as carnes e as gorduras, e mais porções da base, onde ficam os cereais e as frutas. Esse é o “bom para você” da história. Os estudos da fundação concluíram que, se você vira essa figura ao contrário, surge a pirâmide do meio ambiente. Ou seja, os mesmos itens que você tem de comer menos, porque não fazem tão bem à saúde, são os que utilizam mais recursos do meio ambiente para serem produzidos. Já os alimentos saudáveis, que você deve consumir mais, utilizam menos recursos ambientais. Esse é o “bom para o planeta”. A partir dessas pirâmides, mais de 300 produtos da Barilla foram reformulados com essas diretrizes. Principalmente nas áreas de panificação e de molhos: houve mudança de ingredientes, redução de açúcar, de gordura, de sal. Nenhum produto do grupo utiliza itens não sustentáveis, como óleo de palma ou ovos produzidos em gaiola.

Por que a marca tem se envolvido em várias iniciativas de cunho social, de diversidade e de inclusão?
Em 2013, a Barilla criou um board para discutir o que poderia ser feito em prol da diversidade na empresa e nas subsidiárias. A partir daí surgiram grupos de funcionários chamados Employers Research Group, ou ERGs. Esses grupos surgem de forma espontânea e escolhem um tema para trabalhar. No Brasil temos o Grupo Respeito, o primeiro fora da Itália e dos EUA. É esse ERG que organiza várias atividades ligadas a movimentos LGBT+ e outros temas de diversidade. Temos hoje como grande parceiro a Casa Florescer, em São Paulo, que acolhe travestis e mulheres trans sujeitas à vulnerabilidade social. Também apoiamos o Instituto Chefs Especiais, que promove gastronomia inclusiva para pessoas com Síndrome de Down, e recentemente fechamos a ação Pasta da Generosidade, com o restaurateur Walter Mancini, que oferece massa gratuita aos domingos, preparada por um dos Chefs Especiais, no Piccolo Teatro, em São Paulo.  

Como a Barilla Brasil encara a nova fase que se inicia no País?
Estamos cuidadosos, mas eu estou esperançoso. Creio que os próximos anos serão melhores do que os últimos três. Durante a crise, obviamente sentimos um impacto, mas não tão grande como esperávamos. Porque, no fim das contas, quando existe uma crise, as pessoas deixam de sair e comem mais em casa. O que você vai comer em casa que é fácil e prático? Macarrão. Para 2019, nossa meta de crescimento é de 7%, uma taxa agressiva. Estou confiante de que nos próximos anos teremos uma estabilidade maior e isso vai refletir na nossa economia.

LINHA DO TEMPO

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é o número de fábricas da Barilla, distribuídas em seis países

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mil

funcionários trabalham para a empresa em todo o mundo

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mil

toneladas de massas, molhos e soluções para refeições são produzidas por ano pela marca

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