Pantanal e Bonito

JÓIA DO CENTRO-OESTE

ALÉM DOS RIOS DE ÁGUAS CRISTALINAS, DA FAUNA INIGUALÁVEL E DAS PAISAGENS FASCINANTES, O MATO GROSSO DO SUL RESERVA AO VISITANTE UMA SURPREENDENTE E AINDA POUCO CONHECIDA CULTURA GASTRONÔMICA

POR CÍNTIA BERTOLINO | FOTOS ANNA CAROLINA NEGRI

letrau-amareloma vez no Pantanal, é difícil resistir aos clichês. Ver o sol nascer na quietude de uma chalana à margem do rio repleto de jacarés, acompanhar o voo de um grupo de araras-azuis sobre o Rio Paraguai, encantar-se com os tuiuiús planando em pleno pôr do sol e deparar-se com a elegância e a imponência de uma onça pintada em uma despretensiosa caminhada entre a vegetação são experiências de tirar o fôlego.

Ainda pouco explorada por brasileiros – mas cobiçada por estrangeiros fãs do turismo de natureza  —, a região e sua riquíssima fauna já foram amplamente retratadas em ensaios fotográficos, edições do Globo Repórter e até nos versos do poeta Manoel de Barros.

O que poucos sabem é que, além de toda a natureza exuberante, há outro motivo para visitar o Pantanal sul-mato-grossense: uma preciosa cultura gastronômica, que já virou até tema de uma viagem da Brasil Food Safaris, empresa especializada na organização de roteiros com aulas da culinária local combinadas com atrativos turísticos tradicionais.

A região tem uma área de 250 mil quilômetros quadrados — além do Brasil, compreende parte do território de Paraguai e Bolívia —, e apenas 1% do bioma fica no Parque Nacional do Pantanal mato-grossense. A maioria está em propriedades privadas, algumas com unidades de conservação. Percebendo o potencial turístico desta que é uma das maiores planícies alagadas do mundo, muitos proprietários de terras originalmente dedicadas à atividade agropecuária passaram a investir também no ecoturismo.

A Fazenda San Francisco, em Miranda, a 250km de Campo Grande, foi uma das pioneiras. “A ideia era combinar a agropecuária com o turismo. Em 1983 começamos a plantar arroz e esse cultivo atraiu muitos animais, como aves e o cervo do Pantanal, ameaçado de extinção”, conta a proprietária, Elizabeth Coelho.

Hoje o local é destino apreciado por biólogos e observadores de pássaros, que já registraram 356 espécies diferentes ali. Entre as atividades oferecidas estão o passeio de chalana acompanhado por jacarés, a pesca de piranhas e a focagem noturna, para avistar onças, jaguatiricas, cervos, tamanduás e até sucuris.

Para observar animais, a dica é esperar a temporada da seca, de abril a novembro, pois na cheia eles se escondem na vegetação.

Quem não quer perder nada deve fazer como o pantaneiro e saltar da cama quando ainda está escuro. Para aguentar o trabalho pesado — ou a maratona de atividades —, logo no café da manhã é servido arroz de carreteiro, ovos e farofa. É lá também que o turista aprende a preparar quitutes típicos da região, como a famosa linguiça de Maracaju e o caldo de piranha.

Polo de ecoturismo

Outra dádiva do Mato Grosso do Sul, Bonito, que recebe voos diretos da Azul a partir de Campinas, também faz parte do roteiro da Brasil Food Safaris. Considerada o melhor local para mergulho fluvial do Brasil, a cidade é destino certeiro para quem deseja apreciar a natureza em seu estado bruto.

Um dos passeios mais disputados lá é a flutuação da nascente do Rio Olho d’Água até o Rio da Prata. Equipado com roupas de neoprene e snorkel, o turista vivencia uma experiência assombrosa (no bom sentido), pois é possível observar, em alta definição, a fauna e a flora do rio em movimento na água cristalina. As cores saltam à vista e a sensação é de que os cardumes, as rochas e a vegetação de repente receberam um tratamento em technicolor.

O que torna as águas da região tão transparentes é a alta concentração de calcário, substância que age como uma espécie de “filtro” e ajuda a depositar sólidos e impurezas no fundo.

No quesito gastronomia, o ponto alto é a visita à Fazenda Recanto Ecológico Rio da Prata. O passeio passa pela Casa do Doce, onde litros de leite recém-tirados são cozidos em fogão a lenha até, sete horas depois, chegarem à consistência cremosa do doce de leite com um leve defumado. É lá também que, em uma das aulas da viagem, o visitante põe a mão na massa para preparar pratos como o macarrão de comitiva e a sopa paraguaia (veja abaixo).

COZINHA TRANSNACIONAL

A rica culinária sul-mato-grossense nasceu a partir de em ingredientes e preparos de diversas etnias indígenas, além de ter recebido influências de dois vizinhos: Paraguai e Bolívia. Na hora de celebrar a hospitalidade, fartura e alguns pratos tradicionais não podem faltar à mesa:

À noite, Bonito também oferece boas opções para o jantar. O restaurante mais recomendado da cidade, o simpático Casa do João, tem no cardápio a famosa traíra sem espinhas e o pintado no urucum. Aberto há poucos meses, o Aipim – Cozinha de Raízes, da chef Magda Moraes, serve saborosas porções da raiz que dá nome à casa, acompanhadas de caipirinha de bocaiúva.

Não deixe de provar o pacu assado na folha de bananeira perfumado com limão-cravo e servido com arroz de guariroba. Desculpe (novamente) o clichê, mas é de comer de joelhos.

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Chef Magda Moraes, do restaurante Aipim

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João Canto, do Casa do João

EXPEDIÇÕES GASTRONÔMICAS

Há quatro anos, o sul-mato-grossense Paulo Machado e a catarinense Pollianna Thomé pensaram em um curso que combinasse a experiência turística com a culinária local. Da ideia de unir comida e viagem nasceu o projeto Brasil Food Safaris. “O objetivo é levar pessoas que gostam de gastronomia para aprender novos pratos e novas culturas in loco”, conta Paulo. A primeira viagem aconteceu justamente no Pantanal – atualmente o chef trabalha em um livro, em coautoria com a jornalista Cristiana Couto, sobre a cozinha pantaneira.

A ideia deu certo e logo novas viagens foram organizadas em outros estados do País e até no exterior.

Os food safaris costumam reunir de cozinheiros a estudantes de gastronomia, passando pela turma que simplesmente gosta de comer. Para 2017, o Brasil Food Safaris já tem quatro viagens programadas: Campina Grande (PB), de 14 a 18 de junho, durante os festejos juninos; Catalunha (Espanha), de 16 a 21 de julho; Lima (Peru), de 6 a 10 de setembro; e Manaus (AM), de 8 a 13 de outubro. O Pantanal receberá mais uma edição do programa de 15 a 19 de novembro de 2018.

brasilfoodsafaris.com

ONDE FICAR

Fazenda São Francisco (foto)

Os quartos espaçosos são decorados e batizados com motivos pantaneiros e equipados com ar-condicionado, ventilador e tela contra mosquitos. A área externa próxima aos apartamentos conta com duas piscinas agradáveis e mangueiras majestosas. Diárias a partir de R$ 484 (com pensão completa).

BR-262, km 583,  Miranda

67 3242 1088 / fazendasanfrancisco.tur.br

• Che Lagarto Hostels

Os apartamentos duplos são simples, mas confortáveis. Na área externa, a piscina ajuda a refrescar nos dias e noites de calor intenso. Fica a poucos minutos de caminhada do centro de Bonito. Diárias a partir de R$ 162.

R. Antonio Alle, 77, Jardim Andrea, Bonito

67 3255 1559 / chelagarto.com

ONDE COMER

• Casa do João (foto)

Entre os pratos do tradicional restaurante, os mais pedidos são a traíra sem espinhas, que chega à mesa empanada e frita (R$ 81,56), e o pintado no urucum (R$ 90,70), com molho denso. Na hora da sobremesa, experimente o petit gâteau de guavira (R$ 23,75), uma das criações da casa.

R. Nelson Felício dos Santos, 644, Bonito

67 3255 1212

• Aipim – Cozinha de Raízes

O restaurante da chef-pesquisadora Magda Moraes apresenta pratos feitos com ingredientes locais. Não deixe de beliscar o delicioso aipim frito
(R$ 14) acompanhado de caipirinha de bocaiúva (R$ 13), coquinho típico da região. Os pescados, como o pacu assado na folha de bananeira (R$ 85 o quilo, para quatro pessoas), são o carro-chefe, mas a casa também serve sanduíches e hambúrgueres.

R. Monte Castelo, 804, Bonito

67 3255 1871

• Fazenda Recanto Ecológico Rio da Prata

A fazenda serve almoço em buffet com pratos típicos da cozinha pantaneira dispostos sobre fogão a lenha (R$ 55). Entre as opções, fazem sucesso a sopa paraguaia, o macarrão de comitiva e o carreteiro. Na hora da sobremesa, as compotas e o doce de leite preparado ali mesmo roubam a cena.

BR 267, km 512, zona rural de Jardim

67 3321 3351 /riodaprata.com.br

COMO IR

A Azul leva você a Campo Grande e a Bonito com voos diretos a partir de várias cidades brasileiras.

Mais informações: 4003 1118 / voeazul.com.br

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

1. No Pantanal, a seca começa em abril e vai até o início de novembro. A temporada de chuvas perdura de dezembro a março. A seca é o período ideal para observar a rica fauna local. Já durante a cheia a abundante vegetação e os caudalosos rios mostram toda a sua exuberância

2. Independentemente da época da sua viagem, é importante ter na mala repelente, roupas claras, camisas de manga comprida (para evitar insetos), sapatos confortáveis, protetor solar e boné ou chapéu.

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