Praia de Moreré, uma das mais populares de Boipeba

ARQUIPÉLAGO

DOS SONHOS

COM GEOGRAFIA PRIVILEGIADA E NATUREZA EXUBERANTE, BOIPEBA E MORRO DE SÃO PAULO, NA BAHIA, OFERECEM OPÇÕES PARA DIFERENTES TIPOS DE TURISTAS: OS QUE PROCURAM SE DESLIGAR DO COTIDIANO E AQUELES QUE BUSCAM AGITAÇÃO

POR BRUNO SEGADILHA   FOTOS ANNA CAROLINA NEGRI

om 115km de extensão, a Costa do Dendê, no Baixo Sul da Bahia, concentra boa parte das palmeiras que dão origem ao azeite de sabor poderoso. Além dessa iguaria fundamental da culinária baiana, a região tem uma geografia privilegiada, com praias, rios, trilhas e ilhas encantadoras, tornando-se um dos maiores tesouros turísticos do Estado. Seu destino mais procurado é Morro de São Paulo, povoado da Ilha de Tinharé, famoso por suas festas e sua agitação. Pertinho dali, no entanto, há uma joia para aqueles que preferem passar suas férias mais próximos da natureza e longe do burburinho. Trata-se da Ilha de Boipeba, a 23km de Morro, local perfeito para desconectar-se por alguns dias e curtir suas praias desertas, com coqueiros e uma rica fauna marinha. Não à toa, o munícipio-arquipélago de

Cairu, do qual fazem parte as ilhas de Boipeba e de Tinharé, tem se tornado um dos destinos mais populares daquela região que atrai quase 300 mil turistas por ano, segundo a Secretaria de Turismo de Cairu. A melhor maneira de chegar a esse paraíso é por Valença, município vizinho, que recebe voos semanais da Azul. A partir dali, você escolhe o tom de suas férias. Quer a agitação de Morro de São Paulo? A dica é ir até o Atracadouro de Bom Jardim e lá pegar uma das lanchas rápidas ou convencionais que levam até Tinharé. Procura a tranquilidade de Boipeba? Vá até o Terminal Marítimo de Valença, de onde saem as embarcações que cruzam o Rio do Inferno até a encantadora vila, a uma hora dali. Ou, ainda melhor, visite as duas ilhas. Seja qual for a sua opção, você será mais um feliz turista seduzido pelos encantos da Costa do Dendê.

Praia de Bainema, um dos trechos mais intocados do litoral de Boipeba

AO SABOR

DAS MARÉS

Entender o movimento das águas é fundamental para quem quer curtir Boipeba. É algo tão importante que as pousadas normalmente oferecem tábuas de marés, espécie de cronograma com horários de cheia e de quando os volumes são menores. A tabela ajuda na hora de programar os passeios e evita que o visitante seja pego de surpresa: na maré alta é difícil caminhar pelas praias e as trilhas ilha adentro passam a ser as únicas opções de locomoção. Esses caminhos são seguros, mas muita gente não gosta de passar por eles à noite, por exemplo. Nas ocasiões em que o mar estiver menos convidativo, aproveite para curtir a pequena Vila de Boipeba, com cerca de 1.800 habitantes, que encanta com suas casinhas simples e construções de quase 500 anos, como a Igreja do Divino Espírito Santo, monumento histórico mais importante da região, erguida pelos jesuítas por volta de 1610. Boipeba foi uma das primeiras vilas fundadas pelos portugueses, em 1537. Por ser habitado por tribos indígenas menos hostis, o lugar tornou-se um refúgio no litoral baiano para os colonizadores, que queriam ficar longe dos aimorés, conhecidos por sua valentia contra forasteiros. Mesmo com o passar dos séculos, a vila manteve o charme rústico de seus primeiros anos. Por isso quem quiser conhecer a ilha precisa de um calçado confortável e de boa disposição. As ruas são de terra batida ou areia, e carros não entram, o que torna as caminhadas quase obrigatórias. Nada que exija sacri – fício, porém. As praias que compõem os 20km de litoral, apesar da aparência intocada, possuem quiosques em que o visitante pode parar, refrescar-se com uma bebida ou mesmo almoçar. Quem se hospedar na Vila de Boipeba pode começar o passeio pela Boca da Barra. É lá que o Rio do Inferno encontra-se com o mar. O tour continua nas praias do Outeiro, das Pedrinhas, Tassimirim e da Cueira, com seus lindos coqueiros e suas piscinas naturais, de onde é possível observar a diversidade de peixes e recifes de corais. Na Praia da Ponta dos Castelhanos acontece, entre setembro e março, a desova das tartarugas marinhas que dão nome à ilha. Por causa de seu formato achatado,elas eram chamadas pelos silvícolas de “cobra chata”, ou mboi pewa, em tupi-guarani. Queridinha dos turistas, a Praia de Moreré chama a atenção pela enseada de águas tran – quilas e pelas piscinas naturais que se formam durante a maré baixa. Para aproveitar e tomar um drinque em um dos bares flutuantes que aportam lá, é preciso pagar por um passeio de lancha. É ali também que os visitantes podem embarcar nos tratores que cruzam a ilha por trilhas na Mata Atlântica. O passeio dura cerca de uma hora e leva o turista até a Vila de Boipeba. De volta à Boca da Barra, a dica é provar a gastronomia local — como a lagosta do restaurante da Pousada Nascente do Sol —, relaxar à tarde na praia e observar o lindo pôr do sol. Outra maneira de desbravar o destino são os passeios marítimos, que saem de Boca da Barra às 9h30 e voltam às 17h. As lanchas contornam o litoral da ilha passando por todas as praias, e estacionam no povoado Cova da Onça para o almoço. Depois seguem pelo Rio do Inferno, parando em um bar flutuante perto do povoado de Canavieiras, o Parada das Ostras. Vale a pena provar o molusco cru ou gratinado com queijo e palmito, preparado por Célia Fernandes, de 41 anos, uma das figuras mais carismáticas do local. Nascida em Itacaré, 100km ao Sul, ela se mudou para Canavieiras há 17 anos, atrás de um namorado. O relacionamento não vingou, mas Célia se apegou ao lugar e o lugar, a ela. “Fiz vários amigos aqui e descobri um talento, que é cozinhar. Além disso, adoro a calmaria e a beleza daqui”, diz. Tanta beleza atraiu os olhares de gente famosa, como autor de novelas João Emanuel Carneiro. O escritor pretende ambientar parte de sua próxima trama na ilha, o que deve aumentar muito o número de visitantes — que hoje são 20 mil por ano. A notícia ainda não foi oficialmente confirmada, mas o possível progresso que uma novela da Rede Globo traria divide opiniões. “Acho ótimo, pois vai atrair mais clientes”, comemora Célia. Já uma boa parte dos habitantes de Boipeba ainda fica com um pé atrás. Eles temem que um grande empreendimento mude a proposta da ilha. No que depender de muitos moradores, Boipeba vai continuar sendo um paraíso quase intocado.

ILHA DA  

BADALAÇÃO

Já Morro de São Paulo é o destino ideal para quem quer aproveitar as belezas naturais da Costa do Dendê, sem abrir mão do agito. O povoado mais badalado dos cinco da Ilha de Tinharé passou por um intenso processo de urbanização nos últimos 20 anos, quando turistas brasileiros e estrangeiros descobriram os encantos da vila. As antigas ruas de terra batida deram lugar a asfalto e pedras e as casas que ficavam no Centro agora abrigam pousadas, restaurantes, lojas e mercados. Há opções de intensa vida noturna e festas diárias. Engana-se, no entanto, quem pensa que a modernização tirou o charme dali. As habitações simples, que mesclam tradições indígenas, portuguesas e africanas, lembram seu passado colonial. Construções como a Fortaleza de Tapirandu, de 1630, e o Farol do Morro, de 1855, também contam um pouco da história da ilha, antigo alvo constante do ataque de holandeses devido à sua localização privilegiada no litoral brasileiro. A pequena Igreja de Nossa Senhora da Luz, obra concluída em 1845, é uma das lembranças de que os jesuítas passaram por ali. Sua arquitetura graciosa conversa com o passado colonial e com o cotidiano dos cerca de 8.500 habitantes: o piso do templo traz os nomes de alguns dos moradores que foram importantes para a vila. Um bom roteiro para explorar o povoado é começar pela praias cujos nomes seguem a ordem numérica. É possível conhecê-las em algumas horas de caminhada. A Primeira Praia, frequentada por surfistas, é o ponto de chegada da famosa tirolesa que parte do Mirante a 70m de altura: os turistas deslizam por cabos de 340m de comprimento até o mar. É a maior tirolesa que termina dentro d’água do Brasil. A Segunda é indicada para quem quer tomar sol e aproveitar o agito das pousadas que ficam na orla. A Terceira tem bancos de corais perfeitos para um mergulho durante a maré baixa. Sim, as marés também ditam o ritmo em Tinharé e determinam os horários de caminhada até a Quarta e Quinta praias, mais desertas. Há ainda as praias de Gamboa e do Pontal, aonde se chega a pé, na maré baixa, ou de barco, na cheia. Em Gamboa a diversão é lambuzar-se com a argila medicinal que fica na encosta de um morro. Um pouco além de Morro, mas ainda em Tinharé, está o povoado de Garapuá. A maneira mais fácil de se chegar lá é a bordo de pick-ups, em passeios que duram cerca de uma hora, atravessando 16km de Mata Atlântica. Da praia local, repleta de coqueiros e banhada por um mar verde e cristalino, partem as lanchas até os corais em alto-mar. Antes de partir, entretanto, planeje seu almoço. Os poucos bares dali funcionam de acordo com a demanda.

  Por isso os visitantes têm que escolher seus pratos antes do primeiro mergulho. “A gente já limpa os peixes, deixa marinando, prepara arroz, farofa”, explica Pipoca, de 48 anos, dono do restaurante que leva seu nome e que serve uma deliciosa moqueca de lagosta com banana. À noite, Morro de São Paulo transforma-se em outra cidade. A atenção de boa parte dos visitantes volta-se para os bares e para as festas. O agito se concentra na orla da Segunda Praia, onde há uma grande variedade de restaurantes e quiosques. Alguns têm música ao vivo e outros promovem luaus. A farra ali dura até meia-noite. É nessa hora que as casas noturnas localizadas perto do centrinho começam suas festas, que duram até a manhã seguinte. Afinal, em Morro de São Paulo, qualquer hora é boa para se divertir.

PASSEIOS

 aa Luck Recepctivo

A agência promove a Expedição Gamboa, em que o barco sai de manhã da Terceira Praia e passa por pontos turísticos como a Ilha dos Caitás, a Fortaleza de Tapirandu e a Praia da Ponta do Curral. Tem outra parada na Praia de Gamboa, onde os visitantes brincam com a argila e almoçam em um dos bares, como o Halai, com boas opções de peixes e frutos do mar. O passeio custa R$ 50 por pessoa.

71 3038 7575

luckreceptivo.com.br

 aa Coco Dendê

Na Volta à Ilha de Boipeba, a lancha sai de Boca da Barra às 9h30 e segue até as paradisíacas piscinas naturais de Moreré, passando pela Praia da Ponta dos Castelhanos e pelo povoado de Cova da Onça, onde faz uma parada no almoço. Na volta passa pelo povoado de Canavieiras, onde faz uma nova pausa nos bares flutuantes. O passeio termina por volta das 17h. Custa R$ 100 por pessoa.

75 3653 6275

agenciacocodendeboipeba.com.br

 aa TCH Turismo

A Trilha de Toyota sai às 9h30. As pick-ups atravessam 16km de trilhas na Mata Atlântica. Na Praia de Garapuá, barcos aguardam para levar os visitantes até as piscinas naturais. Depois do almoço, é possível ficar por ali, aproveitando o sol e o mar até 15h, quando os carros voltam passando pela Quinta Praia. O passeio custa R$ 75 por pessoa.

71 3038 7555

tchturismo.com.br

ONDE FICAR

 aa Pousada Mangabeiras

Erguida no topo de uma montanha, na Praia Boca da Barra, em Boipeba. O luxo despojado do lugar torna a experiência única, mesmo antes de o hóspede se instalar em um dos 11 bangalôs. Faz parte da Associação Roteiros de Charme. Diárias a partir de R$ 575

R. da Praia, s/nº, Ilha de Boipeba

75 3653 6153 / pousadamangabeiras.com.br

 aa Cristal Pousada

Fica em um ponto estratégico, no centrinho de Morro de São Paulo, perto do comércio, dos restaurantes e das principais baladas do povoado. Os apartamentos têm decoração moderna e espaço amplo e confortável. Os mais luxuosos contam com uma grande banheira de hidromassagem. Diárias a partir de R$ 255.

Pça. Aureliano Lima, s/nº, Morro de São Paulo

75 3652 1490 

pousadacristaldomorro.com.br

ONDE COMER

 aa Andina Cozinha Latina

Comandado pelo chef argentino Gonzalo Rojas, mistura influências das cozinhas argentina, peruana e brasileira. O resultado são pratos como o inesquecível camarão com salada de quinoa negra (R$ 36, foto). O cardápio muda diariamente e, para evitar desperdícios, o restaurante só atende com reserva.

R. Porto de Cima, s/nº, Morro de São Paulo

75 98326 7555 

 aa Sabor da Terra

Comida caseira com ingredientes baianos. Esta é a proposta do restaurante comandado por Renival Batista, figura conhecida de Morro. Não deixe de provar os bolinhos de peixe (R$ 20, seis unidades) e a moqueca de camarão (R$ 35).

 

Caminho da Vila, Centro, s/nº, Morro de São Paulo

75 3652 1490

joiasdomorro.com.br

GUIA

A Azul leva você até Valença, de onde saem as embarcações para Boipeba e Morro de São Paulo, com voos semanais partindo de Belo Horizonte (Confins).

Mais informações: 4003 1118 / voeazul.com.br

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

 1  Tanto em Boipeba quanto em Morro de São Paulo, o visitante está em contato direto com a vegetação da Mata Atlântica, o que significa que terá que lidar com mosquitos e pernilongos. Ou seja, é fundamental munir-se de um bom repelente.

 2  Boa parte dos passeios nas ilhas da Costa do Dendê é de barco ou de lancha. Por isso, se você é sensível ao balanço do mar, vale a pena levar um remédio contra enjoo.

 3  Em uma praia é normal que passemos grande parte do tempo expostos ao sol. Por isso é importante investir em um bom protetor solar para evitar queimaduras.

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