Buenos Aires em dois atos

Com uma cena gastronômica vibrante e ruas planas, ideais para pedalar, a capital argentina é o destino perfeito para quem quer comer bem sem peso na consciência. Conheça seus principais atrativos de bike e termine o dia em restaurantes que figuram entre os melhores da América Latina

POR MARINA AZAREDO
FOTOS ROBERTO SEBA

A capital argentina é um clássico imbatível. A cidade figura há décadas na lista dos destinos internacionais mais procurados por brasileiros. E motivos não faltam para isso: além da proximidade geográfica, ela conquista os visitantes com ruas arborizadas, edifícios em estilo neoclássico, cafés com ares parisienses e carnes incrivelmente saborosas. Não importa a época, ela está sempre cheia de brasileiros em busca de sua atmosfera europeia. E em breve ficará ainda mais fácil chegar ao cobiçado destino: entre dezembro e fevereiro, a Azul terá voos diretos para o Aeroporto Internacional de Ezeiza a partir de Cabo Frio (RJ) e Navegantes (SC), além da rota que sai de Belo Horizonte (MG). O melhor é que, tão multifacetada quanto as principais metrópoles do mundo, Buenos Aires guarda surpresas e atrativos mesmo para quem lá já esteve diversas vezes.
Quase totalmente plana, a cidade viu nos últimos anos um crescimento da sua rede de ciclovias, impulsionado por um plano de mobilidade urbana sustentável. Na esteira surgiram diversas agências de passeios de bike para turistas, com roteiros que contemplam desde as atrações mais famosas, como o Caminito, até o menos conhecido Bairro Chinês. Na gastronomia, a parrilla, o vinho malbec e o dulce de leche mantêm-se campeões de popularidade, mas novidades como a revitalização do Mercado de San Telmo e restaurantes com sabores autóctones podem surpreender até mesmo os habitués. Confira nas próximas páginas três roteiros de bike pela capital argentina e uma seleção de endereços gastronô- micos imperdíveis. Para recuperar as calorias perdidas e comer sem culpa.

O próspero Norte

Com 16 km, este circuito combina história e modernidade, com parques, mansões clássicas de estilo francês e relatos de personagens que fizeram parte da trajetória do país. Partindo do bairro de San Telmo, percorre-se Puerto Madero, Retiro, Recoleta e Palermo, em um roteiro que acompanha o deslocamento da burguesia da cidade. Após uma epidemia de febre amarela, em 1871, os porteños ricos fugiram para o então inexplorado Norte da cidade

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Puerto Madero

Após funcionar por poucas décadas, o porto foi abandonado ainda no início do século 20, transformandose em uma zona inóspita de Buenos Aires. Revitalizada na década de 90, transformou-se no bairro mais caro da cidade, endereço de multinacionais e hotéis de luxo. Projetada por Santiago Calatrava, a Puente de la Mujer é seu principal cartão-postal. Restaurantes, como o Cabaña Las Lilas, ocupam os prédios reformados dos antigos armazéns.

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Plaza San Martin

Este oásis verde na região central de Buenos Aires é obra de um arquiteto francês: Carlos Thays foi quem desenhou a praça localizada em meio a importantes prédios públicos. Um deles é a estação de trens de Retiro, onde desembarcam, diariamente, 3 milhões de moradores da Grande Buenos Aires. Situada no centro da praça, a Torre Monumental foi uma doação dos britânicos para a cidade, em 1916 — e por isso também é conhecida como Torre dos Ingleses.

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Malba

O Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires abriga uma impressionante coleção de aproximadamente 400 obras de artistas do século 20, entre pinturas, esculturas, gravuras, fotografias e objetos. Frida Kahlo, Diego Rivera, Roberto Matta e a brasileira Lygia Clark são alguns dos nomes do acervo. A obra mais famosa da modernista brasileira Tarsila do Amaral, Abaporu, está em uma de suas paredes.

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Cemitério de Recoleta

O também francês Prosper Catelin foi o responsável pelo projeto do cemitério, baseado no Père-Lachaise, de Paris. Primeiramente dedicado aos monges da Ordem dos Recoletos, foi aberto às famílias abastadas da cidade após a epidemia de febre amarela de 1871. Sua moradora mais famosa é Evita Perón, mulher do presidente Juan Domingo Perón, morta em 1952 em decorrência de um câncer.

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Florális Genérica

Com 20 metros de altura e 18 toneladas, a escultura metálica desenhada pelo arquiteto argentino Eduardo Catalano foi inaugurada em 2002, na Plaza de las Naciones Unidas, e logo se transformou em um dos símbolos de Buenos Aires. Projetada para se abrir durante o dia e se fechar à noite, ela passou anos sem funcionar, após uma falha em seu mecanismo. Em 2015, foi reinaugurada, mas com vontade própria: agora nunca se sabe quando a flor estará aberta ou fechada.

O histórico Sul

Os bairros mais antigos da capital são contemplados neste roteiro de 13,5km, que passa por ruas estreitas com calçamento de paralelepípedo e remete às grandes paixões argentinas: San Telmo, a meca do tango, e La Boca, a casa do Boca Juniors, um dos grandes times de futebol do país. Foi nessa zona também que os imigrantes italianos fixaram residência, influenciando para sempre a cultura argentina

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Caminito

O mais famoso cartão-postal de Buenos Aires remonta ao período da imigração italiana, quando os europeus viviam em condições precárias e construíam suas casas com restos de materiais achados no porto. Alguns conventillos, como eram chamados os cortiços, resistiram ao tempo e hoje abrigam lojas de souvenirs. Dançarinos de tango também dão expediente na região.

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La Bombonera

Localizada no coração do bairro La Boca, a mítica casa do Boca Juniors é a representação máxima da paixão dos argentinos pelo futebol. Com três anéis de arquibancadas, é considerado um dos estádios menos amigáveis do mundo para os times adversários devido à vibração da torcida local. Ali funciona também o Museo de La Pasión Boquense, que revive a história de mais de 100 anos do clube.

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Plaza de Mayo

O que mais chama a atenção na principal praça da cidade é a Casa Rosada, onde atualmente trabalha o presidente Mauricio Macri. Mas vale dar uma olhada no Cabildo, que remonta ao período colonial, e na Catedral Metropolitana com seu mix de estilos arquitetônicos. Foi ali também que surgiu o movimento das Mães da Praça de Maio, um dos símbolos contra a ditadura argentina.

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Parque Lezama

O mais antigo parque de Buenos Aires fica no limite entre San Telmo e La Boca e é resultado do fascínio do proprietário daquelas terras, José Gregorio de Lezama, por flores como tipuanas, acácias e magnólias. Em sua casa funciona um pequeno museu histórico. Aos domingos, vale começar o passeio de bike por ali depois de passar pela Feira de San Telmo, programa clássico da cidade.

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Reserva Ecológica Costanera Sur

Entre Puerto Madero e o Rio de la Plata, a poucas quadras do centro financeiro da cidade, a primeira área natural protegida de Buenos Aires tem 350 hectares de bosques banhados e lagos. Algumas das atividades oferecidas ali são expedições de birdwatching, visitas guiadas e passeios em noites de lua cheia.

LOCAIS

Os quadros decorativos com o filete portenho, arte tradicional local, podem ser encontrados nas lojinhas de souvenirs do Caminito por preços a partir de 120 pesos

Entre as muitas marcas de doce de leite, a Chimbote é uma das preferidas dos locais. O pote de 220g sai por 95 pesos na loja La Casa del Dulce de Leche, em San Telmo

Entre as muitas marcas de doce de leite, a Chimbote é uma das preferidas dos locais. O pote de 220g sai por 95 pesos na loja La Casa del Dulce de Leche, em San Telmo

Lagos e Bosques

A natureza é o foco desse tour que, ao longo de 18km, passa pelos parques frondosos do Norte de Buenos Aires e também por atrações menos conhecidas, como o Bairro Chinês

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Parque Tres de Febrero

Considerado o pulmão da cidade, este conjunto de parques de 370 hectares – são quase dois Ibirapueras – é o lugar preferido dos portenhos para praticar atividades físicas e curtir dias de sol. A Ponte Grega do Rosedal e o Jardim Japonês são alguns dos pontos que valem a parada para fotos.

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Bairro Chinês

Assim como muitas grandes cidades, Buenos Aires tem seu bairro oriental — que, na verdade, é mais coreano do que chinês. A área ocupa alguns quarteirões de Belgrano, onde se concentram lojinhas, supermercados e restaurantes. Um grande arco ornamentado com motivos orientais, na Calle Arribeños, não deixa dúvidas de que aquela é a Chinatown argentina.

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Estádio do River Plate

A casa do maior rival do Boca Juniors fica na zona nobre de Buenos Aires — e daí vem a crença de que é o time preferido das classes mais altas, enquanto o Boca teria perfil mais popular. Com capacidade para 60 mil pessoas, o Monumental de Nuñez é o maior estádio da Argentina e também abriga um museu dedicado à sua equipe.

Recompensas à mesa

Além das casas que servem delícias imperdíveis, como o ojo de bife, o doce de leite e as empanadas, Buenos Aires tem uma cena gastronômica vibrante. Carnes exóticas, sabores andinos e cafés especiais também estão no menu de endereços para matar a fome na cidade. Confira a seguir uma seleção de lugares para repor as calorias gastas pedalando. Sempre na companhia de um bom malbec, claro.

Chila

Com apenas 27 anos, o chef Pedro Bargero assumiu a casa que antes era comandada por Soledad Nardelli com um desafio: continuar na lista de melhores restaurantes da América Latina. Para isso aposta na qualidade dos ingredientes em seu menu degustação sazonal, com pratos como a carne de cervo com quinoa e pastinaca, hortaliça que se assemelha à cenoura (foto).
Alicia Moreau de Justo 1160, Puerto Madero
chilaweb.com.ar

Cabaña Las Lilas

No coração de Puerto Madero, este restaurante é fruto da união entre Belarmino Fernández Iglesias, proprietário do paulistano Rubayat, e de uma empresa familiar argentina de criação de gado. O resultado são cortes primorosos como o bife de costilla e o queen beef.
Alicia Moreau de Justo 516, Puerto Madero
restaurantlaslilas.com.ar

Santos Manjares

Escondido em uma das travessas da Avenida 9 de Julio, este restaurante serve alguns dos melhores cortes da cidade a preços módicos. O ambiente é simples e informal, ideal para um almoço despretensioso.
Paraguay 938, Retiro

El Baqueano

Ingredientes nativos e exóticos, como carnes de lhama e de jacaré, são algumas das matérias-primas do chef Fernando Rivarola. Após trabalhar na Espanha por sete anos, ele abriu esta casa especializada em ingredientes autóctones e alternativos, que está em 13º na lista de melhores restaurantes da América Latina, da revista Restaurant.
Chile 495, San Telmo
restoelbaqueano.com

La Cabrera

As duas casas comandadas por Gastón Riveira servem mais de 25 cortes de carne e dezenas de acompanhamentos, que transformaram a casa em um hit entre turistas e porteños. A decoração é moderna, as luzes são baixas e o tango eletrônico domina a trilha sonora.
Cabrera 5099, Palermo
acabrera.com.ar

Mercado de San Telmo

Assim como aconteceu com muitos mercados do mundo, este está em franco processo de revitalização. Tudo começou com o Coffee Town, que vende cafés feitos com grãos de Sumatra e da Etiópia. E uma das novidades mais recentes é a Merci, uma padaria francesa comandada por um produtor de cinema e um jornalista.
Carlos Calvo 495, San Telmo

iLatina

O menu degustação de sete passos agrupa experiências gastronômicas que promovem uma viagem pela América Latina, do México à Patagônia. Entre os pratos preparados pelo chef colombiano Santiago Macías, o ceviche nikkei com linguado, camarões defumados e polvo grelhado é um dos destaques.
Murillo 725, Villa Crespo
ilatinabuenosaires.com

The Argentine Experience

O segredo das empanadas, os pontos da carne argentina e o jeito certo de fazer o mate são algumas das lições desta aula-jantar, que pode ser feita em inglês ou português. Há a opção de participar também de uma wine experience, na qual se aprendem as receitas de três coquetéis feitos à base de vinho.
Fitz Roy, 2110, Palermo
theargentineexperience.com

Lab Café

A atmosfera lembra Berlim, Londres, Nova York: jovens descolados trabalham em seus MacBooks ao som de música indie. Além dos espressos, serve cafés filtrados com diferentes métodos, como V60, Aeropress e Chemex.
Humboldt 1542, Palermo 
labcafe.com.ar

DICAS DE QUEM FOI

 Buenos Aires é uma cidade cheia de opções culturais, bons restaurantes e lindos parques. Para comer carne, recomendo o Cabaña Las Lilas, em Puerto Madero. Também vale a pena ir até Palermo para provar a cozinha libanesa do Sarkis. E não faltam passeios interessantes na cidade. Com crianças, vá ao zoológico e ao planetário. Com adultos, vale a pena visitar o Teatro Colón, mesmo que não seja para assistir a um espetáculo. E eu nunca deixo de passar nos estádios do Boca e do River para comprar souvenirs. Apenas tome cuidado para não ir ao Boca usando símbolos do River! Ou você não chega inteiro ao Caminito.

ONDE FICAR

  • Park Tower (foto)

O hotel tem 181 quartos que oferecem vistas incríveis da capital argentina. A suíte St. Regis tem 328m² e ocupa todo o último piso do edifício, com dois quartos, três banheiros, duas salas de estar, sala de jantar, cozinha e estúdio de trabalho.
Avenida Leandro N. Alem 1193, Retiro
parktowerbuenosaires.com

  • Hotel Uthgra de las Luces

De perfil econômico, o hotel tem bom custo-benefício, principalmente pela localização, a poucas quadras da Plaza de Mayo e da Feira de San Telmo. Os quartos são equipados com cofre, wifi, TV a cabo, ar-condicionado e frigobar.
Adolfo Alsina 525, Montserrat
uthgradelasluces.com.ar

  • Sofitel Buenos Aires

Com 140 quartos, academia, piscina e o tradicional restaurante Le Sud em suas dependências, o hotel é decorado em estilo art déco. As suítes contam com máquinas de café Nespresso, impressoras sem fio e kits de exercício.
Arroyo 841, Retiro
sofitel.com

  • Hotel Panamericano

Este cinco estrelas foi inaugurado em 1981, mas passou por uma boa reforma, e hoje tem 314 quartos totalmente renovados, spa no 23º andar, dois restaurantes e um pub. A localização é privilegiada: a 300 metros do Obelisco.
Carlos Pellegrini 551, Centro
panamericano.us

PASSEIOS

  • La Bicicleta Naranja 

A empresa organiza tours guiados de bicicleta por Buenos Aires, que passam pelos principais pontos turísticos da cidade. Também é possível apenas alugar as bikes e fazer os circuitos por conta própria com a ajuda de mapas descritivos. Sob demanda, oferece ainda saídas temáticas para pontos específicos.
Pasaje Giuffra 308, San Telmo
labicicletanaranja.com.ar


A Azul leva você a Buenos Aires com voos a partir de Belo Horizonte (MG). Entre dezembro e fevereiro, a companhia terá também voos partindo de Cabo Frio (RJ) e Navegantes (SC).
Mais informações:
4003 1118 / voeazul.com.br

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

 1  O presidente Mauricio Macri acabou com o câmbio paralelo, o que significa que o turista não vai encontrar cotações variáveis. É bom lembrar também que é mais barato fazer o câmbio lá do que no Brasil. Quando a Azul Magazine esteve na cidade, em agosto, a cotação era de 5 pesos para R$ 1.

 2  Assim como toda grande cidade latino-americana, Buenos Aires tem furtos e até assaltos, mas, no geral, é mais segura do que as metrópoles brasileiras. A única área que merece mais atenção é La Boca. Por ali, as recomendações são não se afastar do burburinho turístico e não permanecer no bairro após as 17h.

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