Topo da Trilha do Mirante, no Cânion Fortaleza

GIGANTE

PELA PRÓPRIA

NATUREZA

A PEQUENA CAMBARÁ DO SUL (RS) GUARDA UM DOS MAIS IMPACTANTES E BELOS CONJUNTOS DE CÂNIONS DO PAÍS, DE ONDE DESPENCAM CACHOEIRAS CAUDALOSAS DE ÁGUAS CRISTALINAS

POR JÚLIA GOUVEA   FOTOS TOM ALVES

oucas vezes na vida a sensação de pequenez pode ter um efeito positivo. A região gaúcha de Cambará do Sul, no entanto, é um desses casos. Após desbravar trilhas relativamente fáceis, paredões de pedras gigantes descortinam-se diante dos olhos, arrancando o fôlego de quem se depara com a cena. A imagem, de tão surpreendente, não parece real. Cachoeiras despencam na imensidão. Árvores desafiam a gravidade e dançam ao sabor do vento encravadas no precipício. Pássaros flutuam graciosamente na profundeza dos vales. São fendas tão vertiginosas terra abaixo que, na ânsia de admirar o seu fim, é preciso curvar todo o corpo e se esgueirar na beirinha até o chão quase sumir embaixo dos pés. Ao encarar uma paisagem tão grandiosa, a gente se sente bem pequenininho – e é muito bom.

Paisagem a beira da Estrada do Faxinal

Cachoeira dos Venâncios

Ainda pouco explorada pelo turismo em massa, a região de Aparados da Serra, na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, revela-se como um dos segredos naturais bem guardados do País. Em uma área de cerca de 200km, surge um dos maiores conjuntos de cânions do Brasil, com 36 desfiladeiros. Para conhecer dois dos mais famosos do grupo é preciso seguir até a pequena Cambará do Sul, a 200km de Porto Alegre. Graças à sua localização, próxima aos cânions Itaimbezinho e Fortaleza, a cidade se transformou em uma espécie de porta de entrada informal para esse paraíso de rochas colossais. O destino ainda apresenta a encantadora paisagem típica gaúcha, salpicada de araucárias, coxilhas verdejantes e cascatas com lajeados, como a bela Cachoeira dos Venâncios, que se estende por três quedas ao longo do percurso do Rio Camisas. A parada mais procurada costuma ser o Itaimbezinho, localizado a apenas 18km por estrada de terra do Céu estrelado sobre vale de araucárias Cascata de Andorinhas; ao lado, neblina no amanhecer da região e mirante da Trilha do Cotovelo centro de Cambará. Após passar pela portaria do Parque Nacional de Aparados da Serra, há duas possibilidades de caminhos: a Trilha do Cotovelo (com 6km de ida e volta) e a Trilha do Vértice (com 1,5km de extensão). Na primeira o caminho plano é ladeado por uma mata de araucárias, com o chiar das águas das cachoeiras ao fundo – perfeito para percorrer a pé ou de bike. Ao alcançar o mirante, incrustado na ribanceira, a mais de 700m de altura, é possível ver os dois paredões que parecem prestes a se encaixar como peças de quebra-cabeça – são apenas 600m de distância entre uma borda e outra. Já na Trilha do Vértice, a rota é ainda mais tranquila, pois é feita de passarelas de madeira e trajetos bem demarcados que contornam o precipício. Ao longo do percurso, três mirantes servem de camarote para se observarem os melhores ângulos das cascatas das Andorinhas e Véu da Noiva, esta com uma espetacular queda de 500m de altura. Serpenteando as profundezas do vale, fica o Rio do Boi, com uma trilha com alto grau de dificuldade. O nome da cor – redeira esconde um passado agro-trágico: na época em que se criava gado na região, era comum em dias de forte cerração que alguns bois mais desatentos despencassem nas águas do fundo do precipício. Aliás, a neblina é um problema a ser levado em consideração. Devido à posição geográfica das montanhas, próximo ao oceano, são frequentes intensos nevoeiros, quando a massa de ar quente vinda do litoral se choca com a umidade da serra. Nesses dias a visibilidade é mínima, tirando todo o impacto da paisagem. O fenômeno costuma ocorrer mais no verão, o que faz do inverno a melhor temporada para se conhecer a região. Diante deste cenário, o frio da época, bem rigoroso por sinal, acaba passando batido. A grande dica, no entanto, é deixar a visita ao Cânion Fortaleza por último – do contrário todo o resto vai parecer sem graça. Dentro do Parque Nacional da Serra Geral, a 24km de Cambará, o lugar sofreu pouca (para não dizer quase nenhuma) intervenção do homem. Sem trilhas demarcadas ou qualquer tipo de proteção do abismo, anda-se por caminhos forrados de pedras, enquanto o vento chicoteia com força. Ali a natureza não é delicada. Pelo contrário. Revela-se bruta – e ainda mais bela. Do topo da Trilha do Mirante (3km de ida e volta), dá para se observar o cânion quase em sua totalidade: erguendo-se a quase 1000m de altura, as duas bordas estão separadas por 2km de distância, o que cria uma sensa – ção de grandiosidade ainda maior que a do Itaimbezinho. A mata rasteira deixa mais evidentes os contornos rochosos, com seus imensos cumes chapados e amplos. Para alguns, o local pode até parecer familiar: ali foram gravadas cenas da minissérie global A Casa das Sete Mulheres (2003).

Cascata de Andorinhas

Para conhecer o outro lado do cânion, os visitantes seguem pela Trilha da Cachoeira do Tigre Preto. É preciso se embrenhar por um caminho de 3km, passando por trechos com bastante vegetação e algumas subidas. Atravessar o Rio do Tigre Preto, equilibrando-se sobre pedras, parece ser o momento mais desafiador da caminhada. No entanto, ao se aproximar da margem, o que parece ser um tranquilo riacho vira uma espécie de piscina de borda infinita, que despenca em uma queda-d’água caudalosa de 400m de altura. Continuando pela trilha que vai contornando a beirada do cânion, a última parada é no Mirante da Pedra do Segredo. O mistério fica por conta do seu formato: uma esfera de rocha de aproximadamente 30 toneladas que se acomoda majestosamente na ponta de uma escarpa. Ali do alto, contemplar esse cenário é como olhar uma fotografia do passado. Essas gargantas são heranças de um período em que os continentes ainda eram um só. Segundo estudos geológicos, a movimentação das placas tectônicas, há mais de 130 milhões de anos, foi gerando rachaduras no terreno. As paredes ainda exibem as marcas dos derramamentos vulcânicos de um tempo outrora agitado. O resto ficou a cargo da água e do vento que, gentilmente, foram esculpindo os paredões a seus bel-prazeres por milênios a fio. O nome “Aparados da Serra” vem exatamente dessa imagem, de superfícies “aparadas” como esculturas naturais. Ao ficarmos de frente com essa obra imponente, mas ainda em constante processo de transformação, resta-nos respeitar e reconhecer a nossa pequenez diante da grandiosidade da natureza.

DOCE  SABOR

No km 3 da Estrada do Faxinal, a Fazenda Sabores da Querência estabeleceu, há pouco mais de seis anos, uma nova tradição em Cambará: as geleias orgânicas. O casal de proprietários, Álvaro Martins Júnior e Claudia Dreher, depois de uma vida no mundo corporativo, mudou-se para a cidade e começou a plantar frutas vermelhas ao descobrir que a região tinha as condições climáticas ideais para o cultivo. Para aproveitar as safras, a solução encontrada foi a produção de geleias orgânicas. Feitas somente à base de frutas e com pouco açúcar, a linha conta com sabores como mirtilo, framboesa, amora, bergamota, physalis, entre outros.

Estrada do Faxinal, km 3

54 99976 3313

saboresdaquerencia.com.br

Igreja Matriz de São José, no centro de Cambará do Sul
Cânion do Itambezinho

ONDE FICAR

 aa Parador Casa da Montanha (foto)

Instalada em uma fazenda a 10km da cidade, oferece acomodações em confortáveis cabanas de luxo, com vista das araucárias e do rio que corta a propriedade. A maioria das 19 unidades possui hidromassagem na varanda. Aos sábados, o gerente prepara um típico churrasco campeiro. Todo envidraçado, o restaurante, aberto também a não hóspedes, serve pratos regionais com toque gourmet.

Estrada do Faxinal, RS 427, Morro Agudo

54 3295 7575

paradorcasadamontanha.com.br

 aa Pousada Cafundó

À beira de um lago e cercada de araucárias, a pousada em estilo alpino fica no caminho para o Cânion Fortaleza. Com decoração rústica, as suítes são amplas e com mimos como edredons de pluma de ganso. Os hóspedes ganham uma tábua de frios e vinho como cortesia de boas-vindas

Estrada do Cânion Fortaleza, km 10

54 99966 7960

pousadacafundo.com.br

ONDE COMER

 aa O Casarão

Com o simpático atendimento do casal de donos, Ademir e Elaine, é recomendável ir com bastante apetite: o restaurante serve um já tradicional rodízio de trutas, com 12 opções de molhos para acompanhar os filés de peixe. Inclui ainda um buffet com salada orgânica, sopas, massas e a típica polenta com queijo. Há uma boa carta de cervejas artesanais.

R. Padre João Francisco Ritter, 969, Centro

54 3251 1711 

galeteriaocasarao.com.br

 aa Du Perau Pub Bar

Em plena avenida principal, o pub com ares moderninhos é um respiro “cosmopolita” na cidade interiorana. Com rock na trilha sonora e paredes enfeitadas com pôsteres e vinis, a casa serve hambúrgueres inusitados, como o tropeiro (com linguiça e queijo colonial) e o de guacamole. É o lugar ideal para experimentar a Grota Bier, cerveja artesanal feita com água do Cânion do Itaimbezinho.

Av. Getúlio Vargas, 80

54 99711 4652 

PASSEIOS

 aa Coiote Adventures

A agência realiza passeios para diversos atrativos a bordo de Land Rovers, acompanhados por guias especializados. Também promove trilhas que percorrem os interiores dos cânions e tours de quadriciclos.

54 99611 0426

coioteadventure.com.br

 aa Brocker Turismo

O receptivo da Serra Gaúcha organiza traslados do aeroporto de Porto Alegre para Cambará do Sul, além de oferecer passeios e trilhas pela região, como o Tour Itaimbezinho, um programa com oito horas de duração pelo impressionante conjunto de cânions.

54 3282 5400

brockerturismo.com.br

GUIA

A Azul possui diversos voos até Porto Alegre, que se encontra a 200km de Cambará do Sul. Outra opção é voar até Caxias do Sul, que fica a 145km de distância.

Mais informações: 4003 1118 / voeazul.com.br

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

 1  Durante o inverno, prepare-se para o frio: é comum as temperaturas ficarem na casa de um dígito na estação – a região já chegou até a ver neve. Vá bem agasalhado para as trilhas, sobretudo a do Cânion Fortaleza, onde os ventos sopram com força.

 2  Para visitar a parte alta dos cânions, não é obrigatória a presença de guias. No entanto, o acompanhamento de profissionais que conhecem a região e os caminhos torna a experiência mais fácil e segura. Já para percorrer as estradas de terra que dão acesso aos parques nacionais é recomendável estar com um veículo 4×4.

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