Refúgio Pernambucano

Localizada em uma antiga fazenda de coqueiros a 100km de recife, a praia dos carneiros encanta com suas águas mornas e cristalinas e sua natureza intocada. Ali a ordem é aproveitar sem pressa e entregar-se ao ócio.

POR BRUNO SEGADILHA   FOTOS GUI GOMES

   Na década de 30, o comerciante Rosalvo Rocha tomou uma decisão que parecia loucura: trocou uma padaria no interior de Pernambuco por uma fazenda de coco na Praia dos Carneiros, pertencente ao pequeno município de Tamandaré, no litoral do estado. A viagem era cansativa e durava cerca de dois dias, já que não havia estradas e o único jeito de chegar era de barco. Uma insanidade que os amigos e familiares só entendiam ao chegar ao paraíso de águas calmas e cristalinas. O negócio funcionou até meados dos anos 1990, com a morte do empresário. A partir daí seus herdeiros decidiram encerrar as atividades da fazenda e começaram a enxergar o enorme potencial turístico da região, que permaneceu praticamente intocada ao longo dos anos. O resultado desta história? Carneiros transformou-se em um dos destinos preferidos de quem procura o contato com a natureza sem abrir mão do luxo e da privacidade. Não espere, no entanto, momentos de total isolamento. Nos últimos anos, o lugar recebeu hotéis de luxo, bares e pousadas, boa parte pertencente à família Rocha. O acesso até lá também ficou mais fácil com a inauguração de uma ponte sobre o Rio Ariquindá, o que encurta a viagem de quem vem de Recife, a 100km. Graças a essa recente infraestrutura, a região recebe mais de 100 mil turistas por ano, segundo a Secretaria de Turismo de Tamandaré. Deixou para trás o status de coadjuvante de vizinhos badalados, como Porto de Galinhas, a 70km, para tornar-se uma das estrelas do litoral pernambucano com suas belezas naturais e suas construções históricas.

   Para começar, vale a pena conhecer os cinco quilômetros de costa com calma e aproveitar suas águas mornas e tranquilas. Na maré baixa, é possível andar pelos recifes e observar a rica fauna marinha, com diversas espécies de peixes, moluscos e corais. Se você é daqueles que preferem tomar sol e esquecer a vida, uma boa dica: nos períodos de baixa temporada, entre maio e junho e de agosto a novembro, dificilmente terá que disputar barracas, já que é possível contar os turistas nos dedos. À noite, o barulho das ondas e o céu estrelado pedem um bom vinho na beira do mar. Mais adiante está um dos símbolos locais, a Capela de São Benedito. Construída no século 18, ela se tornou objeto de desejo de noivas do País inteiro interessadas em realizar sua cerimônia com vista do paraíso.

   Já para quem procura alguma agitação, o burburinho fica no bar e restaurante Bora Bora, ao lado de um dos acessos entre a estrada de Tamandaré e a areia. É ali também que a maioria dos barcos e lanchas vindos de Porto de Galinhas e de Maragogi, no estado vizinho, Alagoas, atracam. O estabelecimento oferece cadeiras, chuveiros e um cardápio com opções variadas de peixes, frutos do mar, carnes e massas. 

   No final da tarde, os hóspedes dos hotéis à beira-mar costumam descansar em seus gramados bem cuidados. No Pontal dos Carneiros Beach Bungalows, por exemplo, há redes penduradas nos coqueiros, além de colchões e almofadas espalhados pelo chão. Um convite quase impossível de recusar, ainda mais acompanhado de água de coco gelada. “Os cocos são todos daqui. Nem teria porque ser diferente”, explica Antonio José da Silva, de 59 anos, conhecido como Tonho da Pedra. Catador profissional, ele trabalha para boa parte dos empreendimentos dali. Sobe nos coqueiros pelo menos cinco vezes por semana para garantir a segurança de todos. “Os cocos de cachos maduros podem cair na cabeça das pessoas. A gente tem que catá-los sempre. É um trabalho de observação constante”, diz.

   Do outro lado do mar, ficam dois pontos turísticos imperdíveis: a paradisíaca Ilha de Santo Aleixo e a Praia de Guadalupe, no município vizinho de Sirinhaém, cujo grande atrativo é o banho de lama medicinal. Segundo os moradores, ela cura doenças e combate o envelheci – mento. Apesar das maravilhas prometidas, boa parte dos que fazem a travessia de lancha ou de catamarã também está em busca de um “remédio” mais doce e alcoólico: um drinque chamado Tua Mãe. Criado pela comerciante Maria Ivaniz da Silva, de 49 anos, a bebida é uma mistura de vinho, abacaxi e leite condensado. Custa R$ 10 e se esgota antes mesmo da hora do almoço. “Ele foi criado num dia em que estava irritada e uma das minhas filhas não parava de encher a minha paciência perguntando o que eu estava fazendo. Respondi: ‘Estou fazendo a tua mãe’, E o nome pegou”, diverte-se Madá, como prefere ser chamada. Aos que ficam confusos, ela explica: “Minha mãe queria Madalena, mas meu pai me registrou Maria Ivaniz, que acho feio. Então as pessoas me chamam de Madá mesmo”, diz.

   A confusão com substantivos próprios, aliás, parece ser uma questão naquela região, a começar pelo próprio nome da Praia dos Carneiros. Documentos históricos mostram que, em séculos passados, ela já foi propriedade de uma certa família Carneiros. Os moradores, entretanto, defendem que ela foi batizada assim por causa das espumas formadas pelas ondas quando batem nos recifes, lembrando o pelo crespo do animal. A origem do nome Tamandaré, antigo distrito que ganhou o status de município apenas em 1997, também confunde muita gente. Muitos acreditam que foi o Almirante Tamandaré, patrono da Marinha do Brasil, quem deu nome ao lugar. Na verdade, o termo vem do tupi-guarani e se refere a um pajé que teria sobrevivido a um grande dilúvio – lenda indígena que lembra a história de Noé. 

DICA DE QUEM ADOTOU O LUGAR

Arlindo Grund
APRESENTADOR

Frequento as praias de Tamandaré e dos Carneiros há mais de 30 anos tenho casa na região. Sempre gostei do mar e de esportes aquáticos, e encontrei ali o lugar perfeito para praticar bodyboard e esqui aquático porque a água é cristalina. Essa paixão está passando para outras gerações da família. Tenho sobrinhos pequenos que, nos dias de sol, já me pedem para ir para lá. Minha dica é passear pelo mangue no Rio Ariquindá, dar um mergulho na Praia de Guadalupe e almoçar no Beijupirá, que mistura muito bem o doce das frutas com o sabor forte dos frutos do mar.

   Boa parte da história do município encontra-se no Forte de Santo Inácio, em Tamandaré. Totalmente restaurado, abriga um pequeno museu com artefatos e registros sobre sua construção. A obra começou em 1691 para conter os ataques de holandeses, interessados em conquistar um dos pontos centrais na produção de cana-de-açúcar na época do Brasil colonial. A vida marinha também tem vez na antiga fortaleza, com uma sala dedicada às principais espécies da região. Afinal, Tamandaré faz parte da chamada Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, que segue até Maragogi, em Alagoas, e é a maior unidade de conservação federal marinha do Brasil.

   Se sobrar tempo e disposição, não deixe de fazer uma caminhada da Praia de Tamandaré até a dos Carneiros e observar o pôr do sol. Ali, andando na beira do mar de águas mornas e observando a beleza do vasto coqueiral, você terá certeza de que vale a pena passar mais alguns dias neste refúgio do litoral pernambucano. 

ONDE FICAR

  • Pontal dos Carneiros Beach Bungalows

O cenário convida ao relaxamento. Os bangalôs espalham-se em um enorme gramado de frente para o mar e vários coqueiros têm redes. Colchões e almofadas no chão garantem uma soneca embalada pela brisa fresca do mar. Os quartos têm espaço amplo e banheira de hidromassagem. As diárias, a partir de R$ 890, incluem um robusto café da manhã.
Sítio dos Manguinhos, 5, Tamandaré
81 3676 2365
pontaldoscarneiros.com.br

ONDE COMER

  • Bora Bora

Por R$ 30 o visitante pode estacionar o carro e aproveitar a praia, no período das 9h às 17h, com chuveiros e vestiários incluídos. Prove a patola de caranguejo ao vinagrete (R$ 57) e o espaguete à Serrambi, com camarão ao alho e óleo (R$ 65).
Praia dos Carneiros, Tamandaré
81 3676 1482
bbcarneiros.com.br

  • Tapera do Sabor

A boa música e o atendimento atencioso já valeriam a visita, mas a experiência vai além com o inesquecível Peixe da Tapera (R$ 48), um filé de peixe grelhado, servido com baião de dois de camarão, uma mistura de arroz, feijão-verde, camarão, queijo de coalho e creme de leite. Vale cada caloria.
R. Sergipe, s/nº, Centro, Tamandaré
81 3676 1509
taperadosabor.com.br

  • Jobar

Restaurante da Pousada Bangalôs do Gameleiro, tem boas opções de peixes, frutos do mar, carnes e vegetarianas. Destaque para o Camarão a Rosalvo Rocha (R$ 65), preparado no bafo com molho cítrico e azeite. Invista também no filé na manteiga de ervas, servido com arroz de capim-santo e purê de batata-doce (R$ 86).
Sítio Grauce, s/nº, Tamandaré
81 3676 1421
praiadoscarneiros.com.br

  • Beijupirá

Localizado dentro do Pontal dos Carneiros Beach Bungalows, surpreende com suas misturas agridoces. Não deixe de provar a Mixira do Mar (R$ 39,80, foto), entrada com polvo, camarão e marisquinho, servidos com abacaxi e molho especial de queijo de coalho. Entre os pratos principais, o Camarão dos Carneiros (R$ 71) é imperdível: camarões ao molho de gorgonzola acompanhados de arroz de goiaba com bacon crocante.
Sítio dos Manguinhos, 5, Tamandaré
81 36761461
beijupiracarneiros.com.br

PASSEIOS

  • Luck Receptivo

A agência promove um passeio de catamarã que sai da Praia dos Carneiros na altura do restaurante Bora Bora em direção ao mangue do Rio Ariquindá. Dali segue para a Praia de Guadalupe. A volta inclui uma passagem pelos bancos de areia que se formam no mar na maré baixa. Como o movimento das águas varia, essa pausa pode ser no começo ou no final do trajeto. Custa R$ 50 por pessoa.
81 3366 6262
luckreceptivo.com.br


A Azul leva você até Recife, a 100km de Tamandaré, a partir de diversas cidades do País.
Mais informações:
4003 1118 / voeazul.com.br

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

   Uma das principais atrações de Carneiros são os recifes. Expostos durante a maré baixa, têm uma riquíssima fauna marinha, com peixes, corais e ouriços do mar. Os seres espinhosos não atacam, mas escondem-se em frestas e podem espetar seus pés. Por isso leve um calçado fechado e evite ir de chinelo.

  2  Muita gente gosta de tirar fotos nos recifes ou durante os passeios de catamarã, mas receia estragar o aparelho. Se o seu celular não for à prova d’água, vale a pena investir em uma capinha de plástico. Com ela é possível captar imagens sem o risco de se aborrecer.