A Praia do Guaiú, a 14km de Santo André

Santo André

BAHIA LOW-PROFILE

POR MARINA AZAREDO

FOTOS ANNA CAROLINA NEGRI

A APENAS 30KM DE PORTO SEGURO, A VILA DE SANTO ANDRÉ É UM OÁSIS DE TRANQUILIDADE ENTRE OS DESTINOS BADALADOS DO SUL DA BAHIA,COM BELAS PRAIAS, ALDEIAS INDÍGENAS E UM EXUBERANTE PASSEIO PELO MANGUE

A Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem. A afirmação é de Dorival Caymmi, na canção Você Já Foi à Bahia?, escrita em 1941. Mas poderia ser minha, sua, do gringo que vem passar férias no Brasil e se apaixona pelo acarajé, pela sombra de um coqueiro à beira-mar e pela rotina tranquila de quem vive naquelas  terras. Com seu belo litoral de 932km de extensão, o maior do Brasil, a Bahia facilmente conquista o visitante — tanto que é dona de alguns dos destinos mais visitados por brasileiros e estrangeiros. A boa notícia é que, com tanto litoral, ainda há muitas praias sossegadas, com pouco agito e sem disputa por espaço na areia.

Apenas 30km ao Norte do aeroporto de Porto Seguro, Santo André em nada se assemelha nos quesitos burburinho e badalação com Trancoso ou Arraial d’Ajuda, pedaços mais famosos do litoral Sul baiano. Já as praias, os coqueiros, a fala mansa de seus moradores… Os jogadores da seleção alemã de futebol de 2014 – aquela mesma do famigerado 7×1 – que o digam. A delegação, que ficou hospedada em Santo André durante a Copa do Mundo, apaixonou-se pelo local e, bem, o final desta história você já sabe.

Vizinhas de Santo André, Santa Cruz Cabrália e Belmonte também guardam boas surpresas, com uma rica história e forte presença da cultura pataxó. Confira a seguir as melhores atrações desse pacato trecho do litoral Sul da Bahia.

Santo André e Guaiú

O pequeno vilarejo de Santo André, pertencente ao município de Santa Cruz Cabrália, entrou no mapa turístico em 2014, quando a seleção alemã ali se hospedou durante a Copa do Mundo de futebol. A ideia inicial era concentrar os jogadores em Itu, no interior de São Paulo, mas a proposta não agradou aos atletas por conta da distância em relação ao litoral. A solução foi encontrada pelos cartolas alemães às vésperas da competição: apenas seis meses antes do torneio, decidiu-se pela concentração em Santo André, e um empreendimento foi construído a toque de caixa para recebê-los.

Após o triunfo dos alemães na Copa, a estrutura erguida para hospedar o atacante Lukas Podolski e companhia foi transformada no Campo Bahia, um complexo de 14 villas de quatro, cinco e seis suítes que hoje funciona como um resort à beira-mar. É possível alugar as casas inteiras ou apenas um quarto em uma delas – todos são suítes. Integrante da rede Small Luxury Hotels, que reúne charmosos hotéis butique ao redor do mundo, o Campo Bahia é um verdadeiro convite ao ócio, com guarda-sóis à beira de sua cenográfica piscina.

Quem resistir à tentação de se entregar ao dolce far niente, no entanto, encontrará boas surpresas nas redondezas. A mais óbvia é a praia, onde, além de fazer caminhadas e dar um mergulho no mar, pode-se pegar um barco para um agradável passeio até o Parque Marinho de Coroa Alta. Com a maré baixa, é possível observar corais e peixinhos – leve óculos e snorkel para não perder nada.

Já na Praia do Guaiú, a 14km do hotel, a principal atração é o restaurante da simpaticíssima Maria Nilza, onde o prato mais famoso é o arroz de polvo, que equivale em sabor a uma boa conversa com a proprietária, natural de Vitória da Conquista (BA). “Antes de abrir o restaurante, há 22 anos, eu fazia de tudo, menos coisa errada”, diz ela, entre gargalhadas, com seu marcante batom vermelho. Além do cardápio recheado de pratos regionais e das bem feitas caipirinhas, fazem sucesso também os banheiros praticamente a céu aberto do restau- rante. Tudo em perfeita harmonia com a natureza.

A sobremesa deve ficar para a Oficina do Sabor, na Vila de Santo André, cujo carro-chefe é a cocada branca, mas que serve também sabores como café, coco queimado, abóbora e maracujá – o sucesso é tanto que, na alta temporada, são servidos 100kg do doce por dia. Comandada por Iolete Alcântara de Freitas, a fábrica de doces é um dos braços de um projeto social que atende adolescentes carentes da região.

Rio João de Tiba

Santa Cruz Cabrália

Santa Cruz Cabrália está separado da Vila de Santo André apenas por uma travessia de dez minutos de balsa pelo Rio João de Tiba. A cidade tem um pequeno, porém simpático Centro Histórico em sua parte alta, onde a construção mais marcante é a fotogênica Igreja de Nossa Senhora da Conceição, erguida no século 18 com uma rara torre cônica. Ao lado do templo há um conjunto de ruínas de adobe e sambaqui, onde, acredita-se, funcionava uma casa de jesuítas.

Da parte alta também se aprecia a melhor vista de Santa Cruz Cabrália, com a zona portuária e os barcos de pescadores navegando pelo rio. Descendo para a parte baixa, é na Tarifa que chegam as embarcações carregadas de ciobas, badejos, arraias e olhos-de-boi, entre outros peixes – esse é o lugar certo para arrematar o prato principal do jantar ou do almoço do dia seguinte.

Cidade histórica do período da colonização portuguesa – foi no distrito de Coroa Vermelha que, segundo historiadores, os europeus rezaram a primeira missa no Brasil –, Cabrália abriga uma grande reserva indígena da tribo pataxó. No Centro Cultural Indígena Txag’rú Mirawê, o turista é recebido por Makiame Kartãgã, que, no idioma patxorã, significa senhor da lealdade. Descendente da sétima família a chegar à região, o jovem indígena conta a história de sua tribo, convida o visitante a participar de uma dança típica e apresenta o artesanato produzido ali: as gamelas e os colares valem o investimento.

Para uma experiência mais rural, a Fazenda Mãe Tereza, localizada às margens do Rio Camurugi, tem rios, lagos, trilhas, passeios a cavalo e atividades de ecoturismo, como caiaque, tirolesa e slackline, além de um saboroso churrasco uruguaio no almoço – o proprietário é oriundo do pequeno país vizinho.

Passeio a cavalo na Fazenda Mãe Tereza

As ruas de Belmonte

Belmonte

Quarenta quilômetros ao Norte de Santo André, Belmonte é o ponto de partida para um encantador passeio de barco pelo Rio Jequitinhonha. Em 1h20 chega-se à cidade de Canavieiras, conhecida como a capital baiana do caranguejo. Mas também é possível finalizar o tour no mesmo local, no Centro de Belmonte, depois de passear pelos canais cercados por um mangue abundante, habitado pelos enigmáticos caranguejos aratus-vermelhos.

O porto de onde saem os passeios de barco foi uma profícua rota de cacau entre Ilhéus e Minas Gerais na primeira metade do século 19, gerando riqueza para a pequena Belmonte, hoje uma pacata cidade de 24 mil habitantes.

O passado glorioso é confirmado pela arquitetura de suas construções antigas, principalmente na avenida que margeia o rio. Uma das joias locais é um bebedouro do início do século 19, fundido em ferro, que veio da Escócia especialmente para o casamento da filha de um dos barões do cacau – pergunte aos locais pelo chafariz, como ele é popularmente chamado.

Se o passado de Belmonte foi dominado pelo cacau, no presente o que faz sucesso são as cerâmicas de dona Dagmar, uma baiana boa de papo que, aos 75 anos, produz peças de até 2,5 metros sem utilizar nenhum tipo de torno. “As máquinas aqui são as minhas mãos”, brinca ela, que costuma exibir com orgulho aos visitantes um vaso gigante em que escreveu toda a história da sua vida.

Canais pelo mangue

O aratu-vermelho

Avenida na beira do Rio Jequitinhonha

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